quarta-feira, 7 de março de 2007

Pesadelo




Era uma serpente, eu sei. Sua cor puxava pro laranja amarelado. O formato da cabeça insinuava o veneno nas presas, distinção que aprendi ainda na escola primária.

Meus pais haviam a pouco escapado, inocentes e sem danos, do ataque que sequer previram.
Ela se escondia no assoalho, embaixo da escada, onde podia vê-la entre os degraus.

O próximo a passar seria eu, seguido de minha esposa e depois minhas filhas. É obvio, que mesmo eufórico e sem pronunciar palavra, empurrei tudo escada acima, numa virada violenta e muda.

Percebi que o fato mais intrigante é que minha boca estava hermética, imóvel, e eu só conseguia respirar ofegante.

...

Minha mão tateava a cama em busca do corpo que eu tinha certeza estar ao meu lado. Em vão, vagueando o braço por sobre o colchão vazio, ofegante, com a voz trancada na garganta, eu tentava gritar o nome de quem procurava.

Desesperado, percebi estar sozinho no leito. Percebi que só podia contar comigo mesmo, o que me era solitário e triste.

...

Acordei por completo com todas as impressões possíveis na cabeça. Perda, da esperança. Solidão, por estar pensando em alguém. Temor, pelo perigo iminente. Triste, por não poder me conter dentro de mim mesmo.

terça-feira, 6 de março de 2007

Problema Social




- Pó, me dá uma moedinha de R$ 0,25 aí, só pra completar a minha passagem?
- To sem nenhum aqui meu amigo...
- Mas eu só preciso ir até o posto, trocar o curativo do meu pé. Aqui no hospital não querem fazer.
- Essa conversa outra vez?

Ela reconheceu aquela cara, que veio direto da sua sala. Como assistente social, ela conhecia todas essas conversas de pedir dinheiro. Todas as artimanhas dos pedintes e vagabundos da cidade. Inclusive, conhecia quase todos os pedintes da cidade. Reconhecia diversos de visitas à prefeitura e por incursões do Conselho Tutelar.

É incrível como podemos ser medíocres em administrar os nossos recursos sociais. Nos empenhamos hoje, por culpa de um expediente nacional de ajuda aos pobres, em manter e premiar (ou incentivar) quem não tem condições de sustentar os seus filhos. Estar em situação de pobreza não justifica ações impensadas. Temos que eliminar isso de nossas enciclopédias.

Temos que prestar assistência sim, a quem não tem condições de sustentar seus filhos e que estão lutando dia a dia pela sobrevivência dos seus. Mas quando "os seus" crescem todo ano de número às custas dos contribuintes, é burrice.

Educação... Informação e regras mais justas para os programas do governo é o que precisamos. Quem depende do governo tem seus direitos ampliados pela assistência, deveria ter metas e deveres a cumprir além dos outros contribuintes. Ao contrário do atual regime que, além de "redistribuir renda", elimina o dever destes premiados para com os outros cidadãos.

Como se já na bastasse a falta de fiscalização do setor, para lidar com fraudes.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Cidentidade

Fico profundamente frustrado com a atual situação da cidade de Cachoeirinha.
Poucas pessoas aqui percebem a falta de cuidado que temos com nossa cultura e com nossa identidade cultural. Qual a história da cidade, por exemplo? Quem fundou? Quem construiu?

Uma rápida pesquisa no Google resolve este problema. Na Wikipedia você vai achar um ótimo artigo sobre a cidade. Bem completo, ele mostra toda a cultura adquirida pelo grande cidadão que a publicou. E só.

Nas escolas, temos que pregar isso como matéria de prova. Nomes, datas, lugares. Devemos este tributo a este lugar. Ele só não é um lugar melhor para viver por sua culpa. Pela sua arrogância de pensar que o seu voto resolve todos os seus problemas, e o deixa isento dos problemas da cidade.

O fato é, que se quer resolvidos os problemas da cidade, cobre-os de quem governa aqui. Insista em saber onde foi aplicado cada centavo do seu IPTU. Não deixe baratos os deslizes das administrações que não são para o público.

Vamos lutar para que esta cidade seja a Cidade do Desenvolvimento Social, Cultural e Político.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Não aprendi ainda...




Quando notei aquela presença, fiquei meio nervoso. Seus olhos me fuzilaram, me deixaram estirado no chão, sem sentidos. Quando consegui me recuperar, uns 15 segundos depois, consegui desviar os olhos dela. E ela ainda persistiu algumas vezes, com seu olhar em mim, eu podia sentir o seu olhar me queimar a pele.

Seus olhos, de um azul que eu nunca havia visto, me deixaram pensativo. Porque aqueles faróis imensos e acesos procuravam iluminar a minha, até então, forma desprezível? Enchi-me de coragem e olhei novamente. Demorou uns segundos, e ela fixou na minha pessoa novamente. Dessa vez, esperei que desviasse o olhar, e isso não demorou.

Nervosamente ela mexia o cabelo de 10 em 10 segundos. De todo jeito. Achei que ela teria um ataque nervoso. Eu, imóvel permaneci. Pela minha inércia natural, e talvez pelo choque daquela situação impensada até então.

...

Cabisbaixo eu seguia para a Santa Casa. Há 2 semanas eu monitorava a minha pressão, que não andava nada baixa. A dor de cabeça estava me deixando doido e qualquer esforço me era dobrado. Ofegante eu subia a Senhor dos Passos.

Nunca foi fácil ser eu. Assim como eu acho que não é fácil ser ninguém. A dor do homem, ao levantar de manhã e carregar o seu mundo nas costas, pode ser insuportável. Pode destruir tudo o que se construir adiante. Pode inclusive eliminar a vontade de se levantar pela manhã.

O remédio receitado, o caminho alinhado, é hora de trabalhar. Inclusive, já faz horas que é hora de trabalhar.

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Não sei em que estação ela subiu. Nem mesmo me lembro em que estação ela desceu. Mas sei que quando me olhou, me fez sentir o único verdadeiro homem naquele vagão.

Ela me olhou como se olhasse um doce na vitrine. Como se faminta por algo, fosse saltar sobre o meu corpo e me devorar de uma bocada só. Seu olhar ela libidinoso, imoral quem sabe. Sei que adorei.

Seu corpo esguio, sua pele branca. Eu quis por momentos sentar ao lado dela. Era minha segunda chance do dia, e eu não sabia o que estava acontecendo. Meus dias não são assim, devo estar sonhando ainda.

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Enquanto eu caminhava para o ponto de ônibus, eu fiquei pensando o quanto eu sou devagar. Eu a segui por momentos no centro de POA, e ela ainda me olhava. Era evidente o seu interesse, mas mesmo assim eu não tive coragem de abordá-la. Penso no que eu poderia ter dito.

Inclusive, dizer o que a uma pessoa que não se conhece? E o pior, sabendo que o único assunto em pauta, evidente para ambos, é o interesse na aparência um do outro.

Sendo o primeiro contato verbal um marco em qualquer relacionamento, como pode ele ser desperdiçado com qualquer assunto senão o lirismo? E como mostrá-lo a alguém que não conhecemos senão à alguns minutos (talvez segundos)?

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No ponto de ônibus, ela sorriu para mim. Não sei porque razão, eu sorri de volta, e quase exclamei algo como "Belo dia, não?". Ainda bem que não abri minha boca, pois o dia estava um inferno quente e chuvoso.

Nossos olhares se cruzaram por mais de uma vez. Numa delas, eu tive certeza de distraí-la, pois ela deixou que seu material caísse todo no chão, como quem sofre um choque violento e perde o controle dos nervos da mão.

Ela riu de si mesma, pela situação ridícula. Eu gostei mais ainda dela. Poderia alguém lindo como ela, passar por uma situação embaraçosa e ainda rir do acontecido. Ela não se cobrou nem um pouco, mesmo sobre os olhares de vários estudantes risonhos.

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Durante todo o dia, recebi elogios dos olhos, bocas, mãos e nervosismo de mulheres. Engraçado que isso ocorreu em apenas um dia, como se ocorresse naturalmente em minha vida. Eu sofro de uma grave crise de auto-estima exatamente por causa do contrário.

Me sinto insignificante ao lado de mulheres. Me sinto as vezes um lixo ao lado de outras. E neste bem-dito dia, tudo de bom me acontece, pelo menos neste sentido.

Entretanto, tive a chance de conversar com qualquer uma delas, de trocar idéias e quem sabe, dividir as minhas intenções, e não o fiz. Não o fiz por falta de traquejo, por falta de controle de mim mesmo. É como entregar uma faca na mão de uma criança que nunca pegou o lápis e dizer "vai, me opere".

Porque nada na minha vida é aos poucos o suficiente para que eu aprenda comigo mesmo?

Sou um cara lento.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Falha Genética





Desde pequeno eu sempre fui muito passivo, muito de deixar o barco rolar. Minha mãe era o comandante do barco "lar", que nem sempre com a ajuda acertada do meu pai, nos mantinha no rumo certo. Que rumo? O rumo que ela achava por certo seguir. Hoje, me sinto livre para escolher o meu caminho, e gosto de dar essa mesma liberdade a quem me acompanha.

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No início, meu amor era comum ao da outras crianças: Platônico. Minhas musas da infância sempre me preencheram delas, sem jamais saber de mim. Elas foram por muito tempo o sangue que oxigenava o meu ego.


Mas eu cresci, e meu coração insistia em ser uma criança. Eu não sabia, e os médicos nunca vão saber. O meu músculo involuntário tem um retardo voluntário. Os meus olhos ainda precisam usar fraldas.

Eu não sei o que dizer a uma mulher. Eu nunca soube. Elas gostam de ouvir elogios. Elas gostam de ser provocadas. Elas adoram uma conversa picante. Mas o meu conhecimento acaba aí.

Existe uma coisa que os homens não ensinam uns para os outros. Cada um descobre o seu jeito de conquistar, o seu jeito de saltar sobre a "presa". Eu nunca aprendi.

Luzes e Batidas


Uma bebida etílica e um rancor crescente.
Como posso eu estar sozinho em meio a tanta gente.
Ser desejado, me parece que na vida eu só desejo.
Meu rancor quer falar, amordace-o com um beijo.

Não sei porque, mesmo me mexendo eu permaneço.
Quero fugir, sumir, mas na hora esqueço.
A batida me embala, toda luz que pisca me distrai.
Meu amor é surdo, é cego, tem má índole e me trai.

É mentira, eu sei, mas eu quero acreditar.
Que sua boca me preenche. Quer me amar?
Mas sua nuca se apresenta, em despedida repentina.
Esse jogo infanto-juvenil já não me anima.

Procuro nas luzes e batidas, um motivo pra ficar.
Meu copo grande e cheio me convida pra dançar.
Pelas paredes me arrasto, rastejo em direção à pista.
De olhos fechados o meu coração flutua sempre à vista.

Pista


A batida seqüenciada, medida com precisão. Milhares de corpos vazios, carcaças estão expostas. A pista é um balcão de açougue: Escolha a carne, barganhe e leve se puder. No cardápio não temos coração.