sexta-feira, 18 de abril de 2008

Não são sardas...

Vagalumes.
Sobre as copas
Noites iluminadas
Pelo desejo
De namorar dos
Vagalumes

Prateleiras

Procurava pelas ofertas em uma grande prateleira de óleos de cozinha. O preço lhe era salgado mesmo o menor deles. Pegou o que achou ser o melhor custo benefício e saiu dali, com quatro garrafas pelas mãos, quase caindo ou trombando em tudo o que passa.
Seu carrinho está longe, sua mulher e sua filha o aguardam apreensivas. O tempo voa quando se está no supermercado.
- Eu falei só 2 garrafas, tu não ouviste?
O tom de voz era o que mais lhe irritava. Ela falava como se estivesse diante de uma criança mal-criada, que zomba de sua tirania em silêncio. Guarda no seus olhos o semblante de reprovação e o ódio em seu coração transborda pelo seus poros. Agüenta em silêncio.
- Não posso mais falar nada, é isso?
O sangue lhe ferve na garganta. Ainda assim, não grita:
- Eu não ouvi, não sou idiota, apenas não ouvi.
- Não presta a atenção em nada.
- Olha, se vai ficar me tratando como idiota, pode ficar sozinha com as compras.
Poderia correr a rua, ou desprender um tapa proveniente da alma. Mas caminha para o próximo item da lista.

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Esticava o pescoço para enxergar o quadro, o que lhe rendia uma extensa dor no pescoço e ombros no final do dia. As dores de cabeça eram provenientes da visão fraca, que lhe fincavam na cara um óculos velho e feio. O único que os pais pudera comprar.
Sentava no fundo da classe. Achava que assim não era tão visado e podia até mesmo rir das piadas sem ser notado. Como toda criança franzina de 11 anos, tinha medo de ser chacota de colegas maiores. Como pode alguém não perceber a maldade nos olhos das crianças.

Elas não tem perdão e julgam, sem mesmo ser convidadas, qualquer semelhante que lhe cruzar o caminho com as costas curvadas e óculos fundo de garrafa. Passam da violência verbal para a agressão física para se auto-afirmar e não tem medo ou vergonha de adultos. Apenas aceitam as suas decisões pois não poderiam revidar com mesma força. São a crueldade da humanidade.

Ele achou que passaria sem ser notado. Entretanto, houve um professor que mudou o seu lugar na classe e amaldiçoou o seu futuro com o apelido de “micuim”. Não era nada, só uma bobagem. Era pra soar engraçado, mas não o era nada engraçado nas noites de pranto sem sono em que ele mergulhou.

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Passaram pelos laticínios e frutas, estavam quase chegando ao fim da jornada. Ele se virou, depois de muitos desentendimentos e disse o que sentia, de um jeito que somente quem já foi casado por muito tempo diria:
- Eu preciso de ti. Não posso ficar achando que não gosta ou não quer a minha companhia. Eu te amo.
- Eu também, e te peço desculpas. Acho que exagerei.

E durante um bom tempo, próximo aos olhos dos homens, o amor foi celebrado em um longo abraço de matrimônio. Aquele que se respira alternado e que o cheiro embala o medo de soltar.

Um carrinho de supermercado ali próximo acertou o seu traseiro em cheio e deslocou o corpo dele sobre ela. Depois de virar-se, ele exclama com o estômago:
- Tem gente que não se flagra.
- É verdade.
- Quer se agarrar vai pro motel...

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Sua mãe e pai achavam que ele esquecia ou não ligava. O que uma criança pode ter de preocupação a não ser brincar e se divertir? Mesmo quieto ou à noite, os seus olhos enxergavam e seus ouvidos ardiam ao som de seu apelido. Começaram os insultos na sala de aula e ele, cada vez mais revoltado, acabou por agredir vários colegas de classe.A fúria crescia mais rápido que ele, atrapalhando o seu aprendizado.

Sentia-se humilhado a cada brincadeira e não suportava mais a presença de alguns colegas. Percebendo isso, estes eram o mais desagradáveis que podiam com ele, explorando suas fraquezas e seu despreparo. Não existe ética na infância.

Entendeu que não podia lutar. Guardava cada palavra, cada vergonha, todo insulto ou grosseria, toda e qualquer humilhação em sua dispensa particular. Por anos se lembraria de cada gesto que não lhe concederam o esquecimento. Não sabia quanto lugar havia em seu coração, mas era involuntário. Estava lotado, mas sempre caberia mais.

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Sua filha adorava empurrar o carrinho até o caixa. Impossível para os músculos de uma menina franzina de 5 anos sem a ajuda escondida do pai. A fila não assusta a sua paciência de suburbano assalariado conformado, apesar do contínuo de 15 ou 20 metros de carrinhos e pessoas alternados. Cerca de ½ hora depois já são o meio da fila e diante da demora, o papo vai acabando e torna-se chato o fim de noite.

Sem nenhuma cerimônia, um carrinho começa a ladear a fila aos poucos. Num rápido movimento toma a frente do seu, o que faz o assunto cessar de pronto.
- Não pode... o cara não pode ser tão cara de pau.
- É o mesmo que bateu em ti antes...

E ninguém além dos dois abriu a boca pra falar. Pareciam sua filha, acuada em um canto e com medo da discussão. Percebendo a falta de apoio do restante da fila, ele hesita em chamar alguém ou falar algo. Ela não, não deixaria passar essa.

A cara de desdém do cidadão irritou, mas nem tanto. O jeito como se virou e fez que não era com ele passou perto de fazer um rombo em seu peito... mas passou. Um filme em sua mente, anos sem reação à violência muda de quem vira as costas. Insultos e um empurrão distante no espaço e tempo.

Agora, ali diante de seus olhos, não era a si que ignorava. Estava diante do seu limite insuperável, e o destino lhe dera a chance de reparar algumas coisas.

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Todos os anos passam e com eles a gente deixa um certo embaraço de não ter chegado a lugar nenhum. É como se a vida fosse um eterno reviver de cenas e condições em que não podemos alterar. E sempre há um novo natal, um novo começo, uma promessa não cumprida. Um desejo de ida sem volta, como uma migração para corações alheios. Sempre há um novo ano para se viver tudo, tudo de novo.

O menino olhou pra frente sempre, sem mesmo enxergar o que havia. Achou sua mulher em uma esquina esquecida, por suas andanças que queria esquecer. Jamais tocou no assunto “ele” sem ser perguntado e era muito reticente em seu passado. O futuro era o que ele queria, mais nada.

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Pairou no ar por um instante, e o mundo girou ao contrário sem querer. Com os olhos fechados ele se viu novamente em algum espelho da alma. Tal reflexo não lhe negou a dor ou sofrimento antes guardado. Não existe ética na consciência. Não era mais indefeso ou menino. Não era um produto do meio, não senhor. Era um produto de sua própria dor.

Sua mão pousou justa sobre a lata de atum a pouco depositada no carrinho e caminhou lentamente em direção aos dois, era hora do show. Fechou a lata na mão e, mesmo sem pensar no que estava fazendo, socou o homem no supercílio esquerdo. Caindo pra trás o homem ainda viu o seu opressor voando em sua direção. Aos que tentaram ajudar sobrou ainda migalhas do seu ódio. Soco a soco, com a lata ferindo o rosto alheio, esvaziou toda a dispensa de sua alma.
Ligo o pisca para um lado, mas viro para o outro. Tento me enganar que tenho escolhas.

Anotar

A idéia sempre surge quando não consigo anotar. Ônibus, trabalho, um momento com os olhos parados e o texto surge no horizonte. Nem papel, nem caneta, nem sequer um tempo para anotar nada. “Eu vou me lembrar mais tarde” penso, assim como penso que sou um grande escritor.

Lapsos à parte, tenho sorte de conseguir parar à frente do computador, liga-lo e ainda ter coisas para materializar. O que escrevo (e publico) é um extenso mínimo do que penso.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Eu tomei um café forte e não vai acontecer nunca prego os olhos essa hora quando estou em casa vou ligar o rádio e ver o que tem não vou sintonizar essa rádio não pois é muito chata e vou bocejar prefiro sim essa outra mais jovem mais agitada música rápida assim ta ta ta ta nana nenê que a cuca vêm pegar...

Ai cochilei e isso não pode acontecer desliga o rádio rápido isso está me nanando e preciso ver a estrada e ouvir o motor que pode me dar algo para pensar esse vrummmmmm nana nenê que a cuc...

Isso esta ficando perigoso eu preciso pensar em algo ou esse brummmmmm nana nenê que a cuca vem pegar... tatatatatatata perfeito assim por cima do cacurutos esse barulho de tatatatat nana nenê que a cuca vem pegar........ CRASH

quarta-feira, 12 de março de 2008

Para mim

Eu quero correr nu contigo pela casa toda novamente. E quero poder amar sem nem dormir a noite, pois ao fechar os olhos eu não consigo lembrar do teu rosto. Eu quero te amar e viver por ti novamente, pra ser jogado fora na festa dos teus 15 anos.

Quero saltar por sobre os sapos nos dias de chuva e correr do vento antes do temporal. Quero poder sentir seu cheiro no corredor, mesmo antes de te ver, e ao me virar encontrar com teu olhar de farol baixo. Quero dizer pra minha mãe que estou apaixonado, quando não tiver mais ninguém pra contar.

Tu terias que ser eu... para entender o sentido destas palavras. Difícil lê-las, sem lágrimas nos olhos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Salão da escola

Afinávamos os instrumentos, como sempre, na sala do pastor. Disputávamos à tapa a pequena caixa amplificada, valvulada, a única que tínhamos naquele local minúsculo. Eu havia passado pelo salão antes e tinha visto a superlotação. Parecia que todos aqueles pais se importavam mesmo com aquelas criaturas horríveis e mal-educadas que eram constantemente chamados de filhos. Eu estava meio nervoso.

Combinamos com a banda principal que daríamos uma canja antes do show deles. Era como um treino, com platéia de verdade. Os caras da banda principal eram os meus ídolos. Já pareciam adultos, mesmo tendo no máximo dois anos a mais do que eu. E o melhor: eles tinham uma banda, tocavam fora da escola, nos festivais e shows beneficentes da cidade. Eu queria ser como eles, e acreditava que estava no rumo certo.

O cara do vocal sumiu e eu não encontrava. Cheguei suado na sala, onde os acordes eram ensaiados mesmo sem a base e o vocal oficial.

- Onde ele ta?
- Cara, ele sumiu... não achei em lugar nenhum.
- Como a gente vai tocar sem vocal?

E o silêncio pairou por uns instantes. A gente se olhou por um tempo...

- Tu vai cantar – falei olhando o guitarrista – tu tem voz...
- Bem capaz... eu mal consigo tocar, não vou conseguir.
- Eu to fora – a guitarra-base já ia escapando – não vou pagar o micão de tocar assim, sem o vocal.
- Então tu canta – olhando pra mim, o guitarrista se levanta...
- Mas eu mal sei a letra...
- Teu inglês é muito melhor do que o meu. Ensaia aí, a gente tem 30 minutos.

Fiquei pensativo. Eu podia pagar o maior mico, errar a letra, fazer papel de imbecil. Estaria tudo perdido em 3 ou 4 acordes. Peguei o papel e li. A letra não era complicada, eu sabia...

- Deixa que eu canto então... estamos nessa juntos?
- Pode crer... não vai fazer merda!!!
- Só tenho meia-hora, não me pressiona.

Entramos no salão e ficamos no fundo, mais encolhidos do que sentados. Nossas guitarras na mão. O baixo emprestado do Sergio era mais parecido com uma porta sem tinta do que com um baixo. A bateria estava no palco, usaríamos a mesma. Vários assuntos sobre a escola e os alunos, reformas e festas para arrecadação. Aquela baboseira de sempre. Sem perceber, a coisa toda se desenrolava e a gente foi relaxando.

- Agora eu quero chamar o no palco, os alunos da 6ª série, que prepararam uma música pra gente... podem vir aqui garotos!

A gente rumou mecanicamente pelo meio do corredor de gente, no meio de gritos de apoio e provocações dos nossos “amigos”. Aquele palco parecia tão distante... mas chegamos lá. Enquanto conectavam os instrumentos, eu via na cara dos guris o pavor de estar ali. Isso acabou com toda a minha confiança, eu tremia dos pés à cabeça... já havia esquecido tudo o que tínhamos ensaiado... De repente 1, 2, 3, 4... E a música rolou... alto e desafinado... ERA ROCK’N ROLL....

Exatos 5 segundos antes da primeira frase eu fechei os olhos, escondi o resto do rosto atrás do cabelo e fechei bem os punhos, na altura do peito. Se era pra brigar, eu não ia fugir.

Só abri os olhos novamente depois do primeiro refrão... e o que eu vi foi uma platéia enlouquecida cantando comigo. Dançavam na minha frente como malucos de hospício e gritávam o meu nome e de meus amigos. O meu medo e a minha reação foram considerados atitude e eu lavei a minha alma em 5 minutos de nirvana. Terminada a música que havíamos ensaiado o pessoal pediu mais e ainda tocamos outra, com mais entusiasmo ainda. Saímos aplaudidos, talvez não pela performance, mas pela garra e pela coragem.

Ainda hoje, quando fecho os olhos e canto sozinho, eu estou cantando no salão da escola.