A última vez que vi o demônio, ele me disse o que eu precisava saber. Ele postou a mão sobre minhas feridas e disse “Esse teu corpo é o que te vale” e me tirou a dor e as cicatrizes. Ainda disse “Pregue a pobreza e a ignorância perante os outros em meu nome, e serás expulso de onde estiver. Entretanto, faça a mesma coisa em nome de Deus, e verá o teu império nascer e crescer”.
Dias depois, fundei uma seita, onde os mais fracos nos carregam nas costas. Em nossas carruagens de puro ouro e diamantes, ninguém imagina de que tramas nós tratamos. Há um mundo aos meus pés, que me saúda como líder.
Texto encontrado em um baú no Vaticano
sexta-feira, 23 de março de 2007
terça-feira, 20 de março de 2007
Perto demais
Não, não é assim que se escreve.
É impressionante como sempre chego muito perto, mas nunca consigo tocar o meu objetivo. Corre, salta, grita, o objetivo foge, me deixa na saudade.
Na euforia, eu sempre esqueço do principal: Me esquecer da euforia.
É impressionante como sempre chego muito perto, mas nunca consigo tocar o meu objetivo. Corre, salta, grita, o objetivo foge, me deixa na saudade.
Na euforia, eu sempre esqueço do principal: Me esquecer da euforia.
Mary Jane
Ela chegou em casa bem pequena. Lembro que disse a minha irmã que havia sido enganada, que não era um Pastor Alemão. Ela confirmou que havia comprado em uma loja, que forneceu a documentação do animal, e tudo mais. Pensei comigo: "Como esse bicho vai crescer e virar um Pastor?". A resposta me veio em poucos meses.
No primeiro inverno, eu quase não conseguia mais pegá-la no colo. Ela era um bebê de uns 25 quilos, e crescendo. Não sabia fazer outra coisa senão brincar de morder o meu sapato, mesmo com meu pé dentro dele. Às vezes pela manhã, principalmente quando eu não queria, ela tentava me derrubar no chão para brincar. Por várias vezes tive que voltar para casa e trocar de roupa, me atrasando para o trabalho ou para a aula.
Quando esfriou muito, ela ganhou um suéter de lã, nunca mais me esqueci. Eu nunca havia visto um cão daquele tamanho com um suéter, assim como os meus vizinhos. Era a sensação da rua inteira. Em um dia com geada, tirou uma bela foto no gramado com o seu suéter.
Ela crescia e se tornava cada vez mais membro da família. Seu choro era ouvido como reclamação. Quando se estava sozinho, ela era o ombro amigo. A conversa, em que ela escutava apenas, era como um desabafo com um amigo. Por diversas vezes, me peguei pensando nela como um irmão ou primo, que tinha ali uma função familiar. Não era mais só um cachorro de raça, era parte da "nossa raça", com sobrenome. O nome dela era Mary Jane.
Ela teve diversos amigos da mesma espécie, e alguns até de outra, com os quais compartilhou espaço, alimento, carinho e amizade. Mesmo assim, eles iam embora um dia, deixando seus dias mais longos e suas noites mais frias. Era visível sua tristeza ao perder um amigo querido, um ente que ela considerava parte de si mesmo, por vezes.
Eu saí de casa, aos 23 anos, formei minha família, e a cumprimentava nos fins-de-semana. Antes mesmo de chegar, ela já estava sobre as patas traseiras, pendurada à grade da frente, com quem diz: "Olá, veio nos ver? Estava com saudade". Voltei a morar na mesma casa aos 26, onde ela estava me esperando, uma herança em vida de minha família. Única moradora que nunca abandonou aquele lugar, a não ser por um curto período de férias na praia.
Neste último carnaval, ficamos todos os chuvosos dias do feriado no litoral. Arranjei um vizinho para alimentá-la e cuidá-la. Quando voltamos, ela fez aquela festa, pulando e latindo como se tivéssemos voltado depois de meses. O pote de comida cheio delatou sua depressão por estar sozinha. Na madrugada pude ouvi-la comendo desesperada.
Dia desses, quando falava com outro vizinho, ele me confessou ficar incomodado com ela no carnaval. Perguntei porque e ele me afirmou que não viu ela sair do portão nos 4 dias em que estivemos fora. Ela uivava durante toda a noite e adormecia ao amanhecer, junto ao portão, olhando para a rua. Por vezes, adormeceu mesmo na chuva e no frio, mas se recusava a sair dali. Ele disse que se a gente não voltasse na quarta-feira, ele iria ligar.
O valor de um animal, um companheiro, está no quanto ele pode te emocionar com suas atitudes.
Lembro-me de ti
Estávamos lá todo o dia, durante o todo o nosso amor. As árvores por testemunha, mesmo mortas e caídas, ofereciam sua guarida, os seus troncos recebiam a nós como poltronas. Também nós, nem percebíamos, tão perto estávamos que não podíamos ver. Tão perto estávamos um do outro que sequer podíamos respirar.
Fomos um do outro durante muito bosque.
Esquecemos, porém, como quem esquece o que não pode ser esquecido. Distraímo-nos com outros lugares e pessoas, esperando que nelas fosse vivo os galhos que floridos nos sorriam. Perdemos o cheiro acre de nossa pureza selvagem, deixamo-nos impregnar por fragrâncias outras.
O tempo inerte nos espera atrás das árvores. Lá ainda resta o bosque que guarda a nós, com mais saudade que amor, com mais tempo do que poderíamos amar.
Fomos um do outro durante muito bosque.
Esquecemos, porém, como quem esquece o que não pode ser esquecido. Distraímo-nos com outros lugares e pessoas, esperando que nelas fosse vivo os galhos que floridos nos sorriam. Perdemos o cheiro acre de nossa pureza selvagem, deixamo-nos impregnar por fragrâncias outras.
O tempo inerte nos espera atrás das árvores. Lá ainda resta o bosque que guarda a nós, com mais saudade que amor, com mais tempo do que poderíamos amar.
quinta-feira, 15 de março de 2007
Timbres Infantis
Na puberdade, época de mudanças, confusão e isolamento, minha voz mudava todo o tempo. Havia dias que era uma gritaria estranha, quase animal. Outros, ela se fazia tenor, e me deixava todo feliz. Havia ainda, dias em que eu acordava grave e dormia barítono.
Depois dessa fase, eu esperava que minhas cordas vocais se fortalecessem, que parassem com a palhaçada e começassem a me ajudar. Porém, quanto mais eu esperava, mais me decepcionava. As mudanças foram diminuindo, até que não houve mudança nenhuma.
O fato é que fiquei com uma voz de menino, eternamente infantilizado na minha expressão maior. Tive que abandonar o meu sonho de ser cantor e seguir por rumos que não utilizassem unicamente a minha garganta. Nenhum suporte ao meu galanteio, nenhum ganho pela voz.
O mais difícil era aturar a minha avó ligando lá pra casa:
- Alô.
- Alô, meu filho. É a tua veia... Liguei pra saber como está a família.
- Vó... é o Rafa, quer que eu chame o pai?
- Ahhh, desculpa... vocês tem a voz igualzinha....
A genética tem das suas.
...
Conheci uma poeta, que me encanta com as suas histórias e com seu jeito. Quando trocamos mensagens, sinto que temos bastante em comum, e que nossas diferenças apenas servem para que aprendamos um com o outro. Ela tem me dado muitas idéias e acredito ter contribuído em parte com as suas. Uma troca de grande valia. Nunca havíamos nos falado, até que veio a idéia de se ligar, só para conhecer a voz um do outro. Era a curiosidade batendo a porta.
Aquele telefonema encabulado, meio sem assunto, onde se tenta esconder exatamente o que se quer saber. Assim sua voz de travasseiro me atravessou o córtex, exigindo de minha mente controle para não "se perder" no que não existe.
Ela me disse que minha voz é bonita.
A genética tem cada uma.
Depois dessa fase, eu esperava que minhas cordas vocais se fortalecessem, que parassem com a palhaçada e começassem a me ajudar. Porém, quanto mais eu esperava, mais me decepcionava. As mudanças foram diminuindo, até que não houve mudança nenhuma.
O fato é que fiquei com uma voz de menino, eternamente infantilizado na minha expressão maior. Tive que abandonar o meu sonho de ser cantor e seguir por rumos que não utilizassem unicamente a minha garganta. Nenhum suporte ao meu galanteio, nenhum ganho pela voz.
O mais difícil era aturar a minha avó ligando lá pra casa:
- Alô.
- Alô, meu filho. É a tua veia... Liguei pra saber como está a família.
- Vó... é o Rafa, quer que eu chame o pai?
- Ahhh, desculpa... vocês tem a voz igualzinha....
A genética tem das suas.
...
Conheci uma poeta, que me encanta com as suas histórias e com seu jeito. Quando trocamos mensagens, sinto que temos bastante em comum, e que nossas diferenças apenas servem para que aprendamos um com o outro. Ela tem me dado muitas idéias e acredito ter contribuído em parte com as suas. Uma troca de grande valia. Nunca havíamos nos falado, até que veio a idéia de se ligar, só para conhecer a voz um do outro. Era a curiosidade batendo a porta.
Aquele telefonema encabulado, meio sem assunto, onde se tenta esconder exatamente o que se quer saber. Assim sua voz de travasseiro me atravessou o córtex, exigindo de minha mente controle para não "se perder" no que não existe.
Ela me disse que minha voz é bonita.
A genética tem cada uma.
segunda-feira, 12 de março de 2007
Entrevista
- Por favor senhor, nós gostaríamos de fazer uma entrevista...
- Não, estou com pressa...
- Por favor senhor, é rápido, é sobre o Big Brother.
- Hum... é? E vai aparecer na tv?
- Sim, vai sim.
- Então tá. Mas tem que ser rápido mesmo, tenho que chegar ao banco em men...
- Sim, sim, não se preocupe.
Dois minutos de maquiagem e luz. O cenário era um fundo azul, completamente estranho para ele.
- Então, o senhor saberia me dizer, me contar um pouco sobre a rotina da casa do Big Brother?
Ele então discorre alguns detalhes, seus participantes preferidos, e até sua opinião simples e parcial, de trabalhador alienado do terceiro mundo. Sai feliz e satisfeito de ter contribuído com algo tão importante quanto o seu programa de televisão favorito.
Corre para o banco, na intenção de chegar na hora para pagar as contas da empresa. Eles dependem dele, imagina. É o último a entrar na agência, a fila está enorme. Liga o walkman, desligado desde o seu devaneio depois da entrevista tão importante. Uma música lhe desperta do seu inconsciente. É apenas uma valsa, uma coisa do seu passado.
...
A mãe dança com o pai na cozinha. A comida lhe espera nas panelas, enquanto o pai lhe faz a gentileza, lhe tira para dançar a sua música.
...
Tão vivo em sua mente, o falecido pai sempre distante, em um momento tão próximo. Sempre estivera tão imerso em seu inconsciente, em sua rotina impensada e cheia de rituais bobos. Lembrou de todo o tempo que perdeu estando ao mesmo tempo perto e longe dele. Sentiu que toda a culpa do mundo pesava em suas costas agora, e aquilo não era mais possível ser repetido ou concertado. Lembrou o fraco coração da mãe, que lhe aguardava em uma cama de hospital não muito longe dali.
Quando chega do trabalho, corre ao armário, tira os álbuns de fotos e beija a esposa. Corre a rua e pega o primeiro ônibus que passa perto do hospital. Entusiasmado chega ao hospital. Quando procurou pela ala e pelo número do quarto, lembrou de quanto tempo perdeu para ir até lá. Aliás, era a segunda vez que visitava a mãe naquele lugar. Ela não tinha nem doador quando ele lhe viu pela última vez. Sentiu-se com a maior culpa do mundo novamente.
...
Ela falecera segundos antes. Suas últimas palavras para com as enfermeiras foram:
- Eu vi meu filho, eu vi meu filho hoje. Ele estava na televisão.
- Não, estou com pressa...
- Por favor senhor, é rápido, é sobre o Big Brother.
- Hum... é? E vai aparecer na tv?
- Sim, vai sim.
- Então tá. Mas tem que ser rápido mesmo, tenho que chegar ao banco em men...
- Sim, sim, não se preocupe.
Dois minutos de maquiagem e luz. O cenário era um fundo azul, completamente estranho para ele.
- Então, o senhor saberia me dizer, me contar um pouco sobre a rotina da casa do Big Brother?
Ele então discorre alguns detalhes, seus participantes preferidos, e até sua opinião simples e parcial, de trabalhador alienado do terceiro mundo. Sai feliz e satisfeito de ter contribuído com algo tão importante quanto o seu programa de televisão favorito.
Corre para o banco, na intenção de chegar na hora para pagar as contas da empresa. Eles dependem dele, imagina. É o último a entrar na agência, a fila está enorme. Liga o walkman, desligado desde o seu devaneio depois da entrevista tão importante. Uma música lhe desperta do seu inconsciente. É apenas uma valsa, uma coisa do seu passado.
...
A mãe dança com o pai na cozinha. A comida lhe espera nas panelas, enquanto o pai lhe faz a gentileza, lhe tira para dançar a sua música.
...
Tão vivo em sua mente, o falecido pai sempre distante, em um momento tão próximo. Sempre estivera tão imerso em seu inconsciente, em sua rotina impensada e cheia de rituais bobos. Lembrou de todo o tempo que perdeu estando ao mesmo tempo perto e longe dele. Sentiu que toda a culpa do mundo pesava em suas costas agora, e aquilo não era mais possível ser repetido ou concertado. Lembrou o fraco coração da mãe, que lhe aguardava em uma cama de hospital não muito longe dali.
Quando chega do trabalho, corre ao armário, tira os álbuns de fotos e beija a esposa. Corre a rua e pega o primeiro ônibus que passa perto do hospital. Entusiasmado chega ao hospital. Quando procurou pela ala e pelo número do quarto, lembrou de quanto tempo perdeu para ir até lá. Aliás, era a segunda vez que visitava a mãe naquele lugar. Ela não tinha nem doador quando ele lhe viu pela última vez. Sentiu-se com a maior culpa do mundo novamente.
...
Ela falecera segundos antes. Suas últimas palavras para com as enfermeiras foram:
- Eu vi meu filho, eu vi meu filho hoje. Ele estava na televisão.
quinta-feira, 8 de março de 2007
Assinatura
Engraçada essa contradição que me acompanha a vida toda. Uma auto-estima tão baixa que eu sou capaz de pensar antes em todos do que em mim. Um medo natural a competição e a derrota.
Entretanto, nunca escapei de deixar minha marca por onde passei. Amizades e desafetos em qualquer lugar, mesmo sem querer, eu sempre deixei.
Na adolescência, talvez até mesmo antes dela, a procura por um símbolo que me representasse era constante. Uma assinatura, literalmente, que expressasse tudo o que existia em mim. Pobre diabo, eu nem imaginava que, em constante transformação, jamais acharia algo que servisse por muito tempo. Tentei muito, até que desisti.
E como os meus apelidos me acompanharam, e me acompanham, desde a escola. Antes, chorava no meu travesseiro lembrando a humilhação, lembrando a crueldade de crianças, algumas que se diziam até "meus amigos". Não suportava que alguém, além de não enxergar exatamente o que eu era, ainda impunha uma marca, um símbolo equivocado a mim. A dor era insuportável a ponto de me tirar o sono.
Depois de tanto procurar, e de tanto me torturar pela distorção da visão alheia, é que me deu um estalo: Tanto faz o meu nome, o que me chamam ou o símbolo que utilizam. Cada um me vê de um jeito, mesmo que me faça único. Portanto, sou para os superficiais o que vêem por fora. Tenho que mostrar do que sou feito.
Mudei a grafia de meu apelido mais comum, mudei o meu comportamento. Virei a cara aos insultos, me revoltei com as ofensas. Construí em mim a mim mesmo. E pichei em cada canto branco ou liso o meu nome. Roupa preta e cabelo na cara me acompanharam a partir daí. Somente os muito próximos ouviam minha voz comportada e sóbria. Os gritos e violências se tornaram uma constante em meu comportamento de defesa. A loucura era parte de mim agora.
Me seguiram os justos. Me abandonaram os incoerentes. Em minha transformação não houve vitória nem derrota. Houve identidade, houve coração e mente. Encontrei a mim mesmo da maneira mais desesperada: Tendo que provar a mim e a todos do que era capaz.
Ainda assino como antigamente.
Entretanto, nunca escapei de deixar minha marca por onde passei. Amizades e desafetos em qualquer lugar, mesmo sem querer, eu sempre deixei.
Na adolescência, talvez até mesmo antes dela, a procura por um símbolo que me representasse era constante. Uma assinatura, literalmente, que expressasse tudo o que existia em mim. Pobre diabo, eu nem imaginava que, em constante transformação, jamais acharia algo que servisse por muito tempo. Tentei muito, até que desisti.
E como os meus apelidos me acompanharam, e me acompanham, desde a escola. Antes, chorava no meu travesseiro lembrando a humilhação, lembrando a crueldade de crianças, algumas que se diziam até "meus amigos". Não suportava que alguém, além de não enxergar exatamente o que eu era, ainda impunha uma marca, um símbolo equivocado a mim. A dor era insuportável a ponto de me tirar o sono.
Depois de tanto procurar, e de tanto me torturar pela distorção da visão alheia, é que me deu um estalo: Tanto faz o meu nome, o que me chamam ou o símbolo que utilizam. Cada um me vê de um jeito, mesmo que me faça único. Portanto, sou para os superficiais o que vêem por fora. Tenho que mostrar do que sou feito.
Mudei a grafia de meu apelido mais comum, mudei o meu comportamento. Virei a cara aos insultos, me revoltei com as ofensas. Construí em mim a mim mesmo. E pichei em cada canto branco ou liso o meu nome. Roupa preta e cabelo na cara me acompanharam a partir daí. Somente os muito próximos ouviam minha voz comportada e sóbria. Os gritos e violências se tornaram uma constante em meu comportamento de defesa. A loucura era parte de mim agora.
Me seguiram os justos. Me abandonaram os incoerentes. Em minha transformação não houve vitória nem derrota. Houve identidade, houve coração e mente. Encontrei a mim mesmo da maneira mais desesperada: Tendo que provar a mim e a todos do que era capaz.
Ainda assino como antigamente.
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